Live PA x DJ Set: Duas técnicas com a mesma finalidade


Nathalia Birkholz

O psytrance é um estilo de música eletrônica extremamente difícil de lidar. Sua formação, constituída por muitos barulhos torna difícil a mixagem. Ao contrário de estilos mais secos como o techno, que permite ao DJ sincronizar uma música com a outra até o final, o trance psicodélico, especialmente o full-on, possui tantas variações que torna essa missão complicada.

Por outro lado, o excesso de sonoridades e timbres que permeiam o psy também proporciona outras saídas para a diferenciação de identidade de cada DJ. A produção é a principal delas. A avalanche de barulhos que o DJ de psy descarrega é diretamente proporcional ao tanto de opções que um produtor do gênero terá na hora de construir uma música. São milhares de alternativas que permitem uma maior variação na composição.

E é justamente por isso que os flyers das festas de psytrance são onde mais encontramos a palavra Live P.A. no Brasil. A sigla que significa public appearance ou power amplification, entre outras denominações, é uma constante nos eventos psicodélicos. Assim como o próprio nome já diz, trata-se de uma apresentação ao vivo em que a figura do DJ é substituída pela do produtor. O DJ e produtor de psytrance full on, Lipe Forbes, afirma que “no psy, o lance com o live é mais forte” e define o Live P.A como “a última ponta do iceberg, pois no live você é um produtor, um compositor e que também toca”.

No entanto, todas as habilidades e conhecimentos que uma pessoa deve ter para apresentar um belo Live são exageradamente enaltecidas pelo público e por organizadores de festas, que costumam utilizar-se da “sigla mágica” como um chamariz para seus eventos. O DJ e organizador de festas de psytrance Cássio AC concorda e afirma que “este público e até mesmo os organizadores acham que é tudo feito ao vivo, desde a bateria até as melodias, quando na verdade a grande maioria é playback, ou seja, o cara produz o som no estúdio ou em casa e na apresentação só põe a música pra rolar”.

Playback? Mas e o conceito de tocar ao vivo que está no próprio nome? Para não parecer contraditória, eis uma explicação do DJ e produtor de Psytrance Dudu que se apresenta ao vivo como U-Men, “Poucas bandas fazem o Live real, que é modificar ali na hora a música que foi criada”. Dudu considera essencial para um produtor que se preze, fazer o Live ao vivo, ao pé da letra. Mas essa não é uma opinião tão comum entre os produtores de psytrance. O próprio Lipe Forbes, cujo codinome para o Live é Skulptor não discrimina o produtor que não toca ao vivo e afirma que “Fazer live é como um show, você já fez a música e na hora você toca. Cada um faz de um modo. Tem gente que faz playback, tem gente que chama um instrumentista, um cantor”, explica.

Concordando ou não com o playback, o principal quesito para se fazer o Live, que é produzir o set é cumprido pelos produtores. Mas o que todos – os não leigos - querem ver na hora é o quanto o DJ pode interferir na música na hora H e assim criar uma nova versão de sua criação ao mesmo tempo em que interage com a pista. Podemos comparar apresentação de um Live com a de uma banda de rock. Em um show, a banda normalmente toca sua música modificada, quase nunca ela é igualzinha à do CD. Teoricamente, a palavra Live P.A deveria fazer jus a essa teoria. Mas quantas vezes não vemos bandas de rock fazendo playbacks também?

Contrariando o pensamento de muitos apreciadores do psytrance, no DJ set a coisa pode tornar-se tão ou até mais interessante do que ela é no Live. O fato de o DJ estar colocando músicas de terceiros não implica que este seja colocado a um patamar abaixo do produtor. O repertório que agrada ao DJ pode ser um convite para que ele trabalhe e brinque bem com a música que tanto admira. “No set, o DJ tem criatividade em cima das músicas dos outros, fora variedade de estilos, pois misturar os diferentes estilos dos produtores de uma boa maneira é legal”, explica Cássio AC. Outra vantagem do gênero é exemplificada pelo DJ e produtor Dudu que apesar de se apresentar ao vivo constantemente, está numa fase em que prefere somente tocar o DJ Set. “Ultimamente estou com falta de idéias e excesso de novos sons, além do que eu posso mudar meu estilo no DJ Set para acompanhar a pista, e no Live não tem como”, conta.

Após as todas as explicações para estas duas formas de se fazer uma pista dançar - que parecem tão distintas e são tratadas como tais é necessário dizer que hoje estamos num ponto em que o Live e o Dj Set já estão andando lado a lado. Com o advento da tecnologia e a constante substituição dos CDs pelos arquivos de mídia manipulados por computador (mp3, mp4, m4a, aif, wav) que possuem uma qualidade superior, podemos aproximar cada vez mais as duas formas de o artista se apresentar.

Lipe Forbes contou que “Tem um software novo, o Ableton Live, que foi feito para se fazer Live mas os DJs (que tocam com arquivos ao invés de CDs) estão usando para o Set.” O programa em questão possibilita ter um número infinito de canais, permitindo ao DJ ou produtor manipular do jeito que quiser. “Dá para fazer outras versões, remixes ao vivo”, completa Lipe. As vantagens de que “o Ableton tem efeitos que só se tinha no estúdio, e também permite acertar tempos com mais facilidade no Set” apontadas por Dudu também provam a aproximação do trabalho do DJ e do produtor de psytrance. Mas há quem não goste da idéia de ligar o programa com o set pronto no computador, proporcionada pelo Ableton Live. Um exemplo é o sócio do clube Klatu Barada Nikto e DJ de psy, Teko. Quando ele afirma que “não gosto, nem acho que seja uma boa idéia porque DJ é DJ, mixa com as mãos e os ouvidos”, deixa bem explícito seu gosto pelo DJ set tradicional, bem como Rodrigo Ramos(Psyte), que acredita que nenhum live se compara a DJ sets como James Monro e Dimitri Nakov, por exemplo.

Concordando ou não em utilizar o Ableton para o DJ set, ou deixar de remixar a música no Live P.A , o fato é que cada um – tanto o DJ quanto o produtor - tem sua identidade própria na hora de colocar a galera pra dançar. O público quer mesmo é escutar um som de qualidade. A forma como as músicas foram criadas pode ficar em segundo plano, afinal na pista de dança o que importa para quem está escutando é o que entra no ouvido.

Fonte : http://psyte.uol.com.br/aspx/redacao/textos/texto.aspx?seq=208

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